Africa, de Toto, vai tocar no deserto da Namíbia “para sempre”

Por P3

Uma instalação artística, composta por seis colunas, dispostas em círculo, com um MP3 ao centro, tem apenas uma música a tocar repetidamente: Africa, de Toto.

Africa, a canção dos Toto, hit desde que foi lançada, em 1982, está a tocar para todo o sempre no meio de um deserto na Namíbia, no continente que lhe dá nome.

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A instalação artística, da autoria de Max Siedentopf, um artista multimédia germano-namibiano, chama-se, convenientemente, Toto Forever. Trata-se de um conjunto de seis colunas, dispostas em círculo no topo de seis pilares brancos, com um MP3 ao centro – que tem apenas uma música a tocar repetidamente.

“O deserto da Namíbia – que é, com os seus 55 milhões de anos, o mais velho do mundo – pareceu-me o local ideal para isto”, disse o artista à CNN. “Espero que a música toque tanto tempo.”

A instalação funciona a baterias solares, que vão garantir que a música toca “para sempre”. Mas Siedentopf não é ingénuo o suficiente para achar que isso vai mesmo acontecer. “A maior parte [dos materiais] da instalação foram escolhidos para serem tão duráveis quanto possível, mas tenho a certeza que o ambiente árido do deserto vai devorá-la rapidamente”, disse à BBC.

A pouco conhecida história de ‘Noite Feliz’, uma das mais famosas músicas de Natal

Por Gabriel Bonis

Em 24 de dezembro de 1818, o padre austríaco Joseph Mohr pediu ao amigo organista Franz Xaver Gruber que compusesse a melodia para um poema escrito por ele dois anos antes. Nascia assim Stille Nacht, heilige Nacht, uma das mais famosas canções natalinas, traduzida para mais de 300 idiomas e conhecida em português como Noite Feliz.

A música foi tocada para o público pela primeira vez em uma igreja em Salzburgo, na Áustria
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Naquela noite, Mohr e Gruber executaram a música pela primeira vez durante o serviço da igreja de São Nicolau em Oberndorf bei Salzburg, na Áustria. Hoje, a canção é quase onipresente no Natal, figurando desde 2011 na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O poema foi criado em um período difícil para Salzburgo. O então principado eclesiástico independente sofreu diversas ocupações durante as Guerras Napoleônicas. Os conflitos trouxeram caos e fome – em especial no Ano Sem Verão de 1816, quando temperaturas extremamente baixas destruíram plantações na Europa e América do Norte.

Naquele mesmo ano, Salzburgo perdeu sua independência e foi incorporada à Áustria. “As palavras deste cântico foram escritas nestas circunstâncias. Elas expressam uma ânsia por redenção e paz”, explica à BBC News Brasil Peter Husty, curador da exposição Silent Night 200 – The Story. The Message. The Present (“Noite Feliz 200 – A História. A Mensagem. O Presente”, em tradução livre), no Museu de Salzburgo.

O organista Franz Xaver Gruber compôs a melodia da música
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O contexto local não impediu que a canção se tornasse um sucesso em todo mundo. Primeiro a música se espalhou em um manuscrito na região dos autores. Depois, o construtor de órgão Carl Mauracher a levou para Zillertal, um vale em Tirol, onde era cantada por corais. Dali, se alastrou pela Alemanha, Europa e Estados Unidos.

“O Cristianismo levou essa música para o mundo com missionários (protestantes e católicos). Ela virou acessível em muitas línguas e dialetos, tonando-se global”, afirma Thomas Hochradner, chefe do Departamento de Musicologia da Universidade Mozarteum, na Áustria, e idealizador da exposição Silent Night 200.

A exibição traz informações detalhadas sobre a canção – como o fato de que ela é cantada por 2 bilhões de pessoas no mundo -, além de objetos que ilustram o estilo de vida no tempo da composição, autógrafos de Mohr e Gruber, e o piano usado para tocar a música.

Uma infinidade de traduções e adaptações

A propagação de Stille Nacht em diversos idiomas resultou em traduções nada fiéis ao texto original. Muitas delas são, na verdade, adaptações. A versão em português, por exemplo, foi intitulada Noite Feliz, embora o título real seja algo como “Noite Silenciosa”.

O museu de Salzburgo exibe as cifras e letras originais da música
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A primeira estrofe também abriga a frase “pobrezinho nasceu em Belém”, inexistente no poema austríaco. “As chamadas traduções são novas poesias que tentam manter a mensagem do texto, mas precisam levar em conta o ritmo e as rimas (da língua)”, diz Hochradner.

Segundo Husty, geralmente as traduções buscam manter o sentido central da canção: o Natal como festa da redenção e sinal de paz. Mas nem sempre é o caso, como prova a Weihnachtsringsendung, a versão nazista do cântico.

O regime de Hitler tinha um problema óbvio com Natal: Jesus era judeu. E o antissemitismo estava no centro da existência da ditadura nazista. Por isso, sua equipe tentou remover todo o contexto religioso da celebração. Isso incluía reescrever canções natalinas sem referências a Deus, Cristo ou fé.

Na Alemanha nazista, o primeiro verso de Stille Nacht transformou-se em um louvor a Hitler. A letra dizia: “Tudo é calmo, tudo é esplendido / Apenas o Chanceler fica em guarda / O futuro da Alemanha para vigiar e proteger / Guiando nossa nação certamente.”

Documento com cifras e letras originais da música é exibido no museu de Salzburgo
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A música também não escapou do uso comercial em inúmeros filmes (a Forbes afirma que ela apareceu em 295 até 2015) e interpretações por cantores famosos, incluindo Sinead O’Connor, Elvis Presley, Etta James e Kelly Clarkson.

Os compositores

Mohr nasceu em 1792 em Salzburgo, onde estudou e foi ordenado padre. Em 1815, o religioso tornou-se curador na pequena municipalidade de Mariapfarr. No ano seguinte, escreveu o poema que o tornou conhecido.

Em 1817, Mohr foi transferido para Oberndorf bei Salzburg. Na cidade, o padre conheceu Gruber, nascido em Hochburg em 1787 e que tocava órgão na igreja local. Eles cultivaram uma amizade por toda a vida.

O padre austríaco Joseph Mohr escreveu a letra da música
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Os dois são tão famosos na Áustria que os locais onde nasceram, trabalharam e morreram possuem memoriais e museus em sua homenagem.

Para celebrar os 200 anos do hit natalino, Hochburg, Mariapfarr, Arnsdorf, Hallein, Oberndorf, Hintersee, Wagrain, Fügen e Salzburgo fizeram uma parceria para uma exposição nacional. “Os austríacos gostam e cantam a canção, principalmente em sua versão original, que difere um pouco daquela mais comum no mundo. É mais uma tradição do que orgulho”, afirma Hochradner.

Para Husty, Stille Nacht transcende a religião. “Ela conta a história do nascimento de Jesus. Então é um cântico religioso ao mesmo tempo em que é para a paz no mundo.”

(via BBC Brasil)

A música que deu início à estética gótica dos anos 1980

Por Camilo Rocha

Lançada em 1979, a música “Bela Lugosi’s Dead”, da banda inglesa Bauhaus, é considerada o ponto de partida da estética gótica no pop e rock. Prestes a completar 40 anos, a faixa foi reeditada em edição especial por um selo americano.

O BAUHAUS EXISTIU POR QUATRO ANOS EM SUA PRIMEIRA FASE
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Single de estreia da banda, a icônica canção foi gravada em uma única sessão, segundo ex-integrantes. A sonoridade era inusitada. O ritmo foi gerado selecionando a opção “bossa nova” em uma bateria eletrônica barata. Os efeitos na guitarra vieram dos ensinamentos do dub jamaicano. A linha de baixo parece descer em direção a uma catacumba mal iluminada. A voz sepulcral fala sobre morcegos deixando o campanário porque Bela Lugosi está morto.

Bela Lugosi foi um ator húngaro que se notabilizou por seu papel como conde Drácula, em um clássico filme americano de terror de 1931. Morto em 1956, sem nunca conseguir se dissociar do personagem, Lugosi foi enterrado com roupas de Drácula por iniciativa do filho e da esposa.

REPRODUÇÃO CAPA DO SINGLE DE ‘BELA LUGOSI’S DEAD’, DE 1979

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David J, baixista do Bauhaus, teve a ideia para a letra da música depois de assistir ao “Dracula” com Lugosi na televisão. Em um telefonema para o guitarrista Daniel Ash: “acabamos falando sobre o filme que tínhamos visto pela primeira vez e amamos. Inclusive o lado kitsch, com o morcego de borracha!”, disse ao site Dangerous Minds.

A música gótica

O termo “gótico” já tinha sido usado por críticos musicais. E, de Velvet Underground a Joy Division, não foram poucas as bandas de rock que lidaram com atmosferas melancólicas e sentimentos de prostração. Mas foi só na década de 1980 que “gótico” passou a significar uma vertente do rock e uma subcultura urbana, com códigos definidos.

O quarteto Bauhaus, que durou de 1979 a 1983, liderou a tendência. Trazia em suas músicas várias das características associadas a essa estética, como as guitarras distorcidas, o ritmo seco, os vocais agoniados e o clima de desespero. Ecos de David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed eram evidentes. A temática podia conter de referências bem-humoradas à ficção de terror, caso da própria “Bela Lugosi’s Dead”, a cenários existenciais dolorosos, como em “Dark Entries”.

Depois da separação, os membros do Bauhaus gestaram muitos projetos subsequentes, entre os quais se destacam a carreira solo do vocalista Peter Murphy e as bandas Tones on Tail e Love & Rockets, com outros ex-integrantes. A banda se reagruparia em 1998 e entre 2005 e 2008.

A influência do som do Bauhaus reverberou pelas décadas seguintes, absorvida por nomes como Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails, Marilyn Manson, Massive Attack e Sepultura. Fora da música, o quadrinista inglês Neil Gaiman se baseou em Murphy para criar os traços de um dos personagens de sua graphic novel “Sandman”.

Dark e gótico

“Gótico” serviu para definir movimentos e linguagens distintos ao longo da história, desde a arquitetura de igrejas europeias da Idade Média a uma vertente literária romântica do século 19, baseada em terror e morbidez, de obras como “Frankenstein”, de Mary Shelley, e os contos do escritor americano Edgar Allan Poe.

Também chamada de “dark” no Brasil, a subcultura gótica se tornaria uma das mais influentes dos anos 1980, um destaque do período conhecido como pós-punk. Sob a sua capa, residiram alguns dos artistas mais marcantes da década, como The Cure, Siouxsie & the Banshees, Sisters of Mercy, Cocteau Twins e Nick Cave (quando era vocalista do Birthday Party).

ABERTURA DO FILME THE HUNGER DE TONY SCOTT

O visual gótico se caracterizava por roupas pretas volumosas, adereços de renda de bilros, cabelos desgrenhados e maquiagem pesada (para homens e mulheres). Com seu ar poético e excêntrico, a estética gótica se mostrou atraente a públicos jovens alternativos em todo o mundo.

No Brasil, porões dançantes como Madame Satã (São Paulo) e Crepúsculo de Cubatão (Rio de Janeiro) viraram locais para onde convergiam os adeptos locais, encapotados mesmo nas altas temperaturas do verão local.

(via NEXO)

Festival de Woodstock está perto de acontecer novamente

Por Stephanie Hahne

2019 marca o aniversário de 50 anos da primeira edição do icônico festival Woodstock, que aconteceu em Agosto de 1969, em Nova York.

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Agora, o co-criador do evento, Michael Lang, deu força aos rumores de que uma edição comemorativa do festival pode acontecer no ano que vem. O cara vem dizendo desde 2016 que há planos para a celebração, mas agora as coisas parecem estar mais certas.

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Sobre como seria essa nova edição, o co-criador disse que será focada na sustentabilidade e em questões sociais, além de celebrar a história do festival.

“Esperamos inspirar as pessoas a se expressar e se envolver e ir votar para nos ajudar a salvar o planeta. Estamos com problemas e parece que fomos trazidos de volta no tempo de várias maneiras. É estranho como muitas coisas são semelhantes ao que era no final dos anos 60. Lições que pensamos que aprendemos parecem estar voltando, como se não tivessem sido aprendidas. O progresso que aprendemos na justiça social parece estar retrocedendo.”

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O Woodstock já teve outras duas edições de aniversário – uma em 1994, na cidade de Saugerties, e a infame edição de 1999 em Rome.

(via Tenho Mais Discos Que Amigos)

Massive Attack reeditam disco em ADN para ouvirmos… no futuro

Por João Ribeiro 

Mezanine será reeditado numa programação especial de ácido desoxiribonucleico.

Podem não ser a banda britânica mais popular da sua geração, podem nem ser o nome que surge à cabeça quando a keyword é criatividade, o que é certo é que os Massive Attack são das bandas que melhor percebe os nossos tempos e os trabalha com ideias que podem não ser de fácil digestão mas dão que pensar. Poder-se-á dizer que, há semelhança da sua música.

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Mezzanine saiu há 20 anos e há 20 anos tornou-se o primeiro disco disponível gratuitamente em streaming. Agora o duo que com anos de história, faz culto, deixando marcas na história impossíveis de replicar – como Teardrop – prepara-se para lançar mais uma edição do mítico álbum num formato que não podia dizer mais sobre os nossos tempos.

A ideia parece-se com o plot de um episódio de Black Mirror – série também britânica – e, de certo, modo pode servir como sinal da proximidade para essas realidades distópicas, mas a sua base é concreta e ao que tudo indica vai mesmo acontecer. O duo que já fora trio, atualmente formado por 3D (Del Naja, um dos possíveis Banksy) e Daddy G, Grant Marshall, vai lançar Mezanine em DNA. Sim, leste bem, Mezanine será reeditado numa programação especial de ácido desoxiribonucleico.

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CONVERTER CÓDIGO DIGITAL EM BIOLÓGICO

A ideia que parece altamente impossível ganha lógica quando percebemos a explicação e enquanto nos lembramos de como o mundo digital ganha forma: o código binário.

O exercício passa, portanto, por converter de código digital (binário) para código biológico. Este código biológico distingue-se por não ter apenas duas possibilidades, 0 ou 1, mas sim quatro, habitualmente conhecidas como Adenina, Citosina, Guanina e Timina. A ideia é estabelecer um código possível de converter “de um lado para o outro”, para tal, os investigadores encarregues do projeto criam uma codificação especial através de ADN, fazendo cada base corresponder a uma parelha de algoritmos como 00, 01, 10 e 11.

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“Adenina representa 00, citosina representa 01, guanina representa 10 e a tinia representa 11. O resultado assemelha-se com ADN natural em todas as formas mas não contém informação genética útil”, explica Robert Grass, um dos responsáveis pela experiência, à revista Wired.

Depois de convertido o sinal de digital para biológico, o disco será gravado, por assim dizer, em pequenas partículas de vidro suficientemente grandes para suportar o ADN e bastante pequenas para caberem comprimidas num spray.

O grupo trabalhou em parceria com uma empresa suíça, a TurboBeads, um spin-off com vistos comerciais da universidade ETH Zurich, e terá pago mais de 650 mil dólares – o preço por codificar biologicamente 20 MB de dados.

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PARA OUVIR É PRECISO UM LEITOR DE ADN E UM COMPUTADOR POTENTE

Tudo isto pode parecer uma loucura e mais uma ideia maluca de uma banda que só quer aparecer mas está muito longe de o ser. Para além de uma prova de conceito fortíssima que aproxima a cultura das ciências e destrói barreiras inter-disciplinares que a sociedade se vai encarregando de criar, o feito dos Massive Attack pode ser visto como a pensar no futuro. Para ouvir o registo, é preciso um leitor de ADN, claro, e um computador potente capaz de processar toda a conversão enquanto a reproduz, pelo que atualmente apenas o MinION da Nanoportech, com um custo de 75 mil dólares é capaz de o fazer, podendo ainda assim demorar uma semana.

Grass, professor no Functional Materials Laboratory do ETH Zurich, não desanima perante esta realidade. Pelo contrário, na mesma entrevista à Wired afiança que surgirão aparelhos capazes de o ler com mais eficiência e que o trabalho dos Massive Attack é o primeiro da enorme herança cultural que o homem deixará sobre a forma de ADN.

Del Naja, na mesma entrevista, incita a reflexão e a comparação entre os servidores atuais e o potencial desta compressão. 1 miligrama de ADN, segundo a Wired, é capaz de armazenar todo o texto de todos os livros da biblioteca do Congresso e é por isso que o músico é perentório. “E se pensarmos no ADN versus a quantidade ridícula de servidores que temos e que têm de ser arrefecidos 24/7 por todo o mundo, isto parece uma solução para o futuro. Isto permite arquivar música centenas de milhares de anos”, disse Del Naja.

Outro dos colaboradores do projeto, Andrew Melchior, vai ainda mais longe na sua crença em relação ao armazenamento em ADN. Melchior começa por revelar o seu desejo de que material cultural possa ser armazenado em forma de ADN no Svalbard Global Seed Vault (o armazenamento biológico de reserva para o caso de uma desgraça mundial) e explica o seu porquê: “A vantagem do ADN é que a nossa civilização pode desfazer-se em pó e reerguer-se com tecnologias completamente diferentes, o que significaria que não teriam acesso a computadores ou discos. (…) Como todos os humanos têm ADN, torna-se expectável que qualquer civilização do futuro possa aceder a informação contida no ADN. Isso significa que a primeira coisa que essa civilização do futuro conhece sobre nós seja o Mezzanine.”

(via Shifter)

“Hey Jude” tem 50 anos: a história da música que Paul McCartney escreveu para o filho de John Lennon

Por Mariana Fernandes

Em 1968, Paul McCartney foi visitar a mulher e a criança que John Lennon tinha deixado para ir viver com Yoko Ono. Durante o caminho compôs “Hey Jude”, uma das músicas mais populares dos Beatles.

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Os Queen têm Bohemian Rhapsody. Os Pink Floyd têm Wish You Were Here. Elvis tem Can’t Help Falling In Love e os Rolling Stones têm Satisfaction. Se são ou não as melhores músicas de cada um, é altamente discutível. São, ainda assim, as músicas mais populares de cada um. Seja pela mensagem, pela altura em que foram escritas, pelos acordes contagiantes ou pela conotação de hino que adquiriram. O mesmo não acontece com os Beatles. Não por não existir uma música mais popular: mas por existirem muitas músicas que poderiam ser consideradas a mais popular.

Tudo depende se os cabelos estavam mais curtos ou mais compridos, se os fatos escuros já tinham dado lugar às flores e ao pé descalço, se os rapazes de Liverpool já eram os homens do mundo e se Brian Epstein já tinha dado lugar a George Martin. Tudo depende do gosto de quem ouve. Ainda assim, existe uma música que agrada normalmente aos que preferem She Loves You, aos que adoram Come Together ou até aos fãs de I Am The WalrusHey Jude, provavelmente a mais consensual de todas as canções originais dos Beatles, faz este mês 50 anos.

Hey Jude, na verdade, começou como “Hey Jules”. A explicação é simples: em junho de 1968, Paul McCartney visitou Cynthia e Julian Lennon, a primeira mulher e o filho mais velho de John, que este deixou quando foi viver com Yoko Ono. A caminho de Weybridge, em Surrey, onde os dois viviam, McCartney começou a compôr dentro da cabeça uma música que era mais como um braço à volta de Julian, então com apenas cinco anos. O facto da coluna vertebral da canção ter sido pensada e construída enquanto o inglês estava ao volante – sem papéis, sem instrumentos – explica a simplicidade da composição. Paul McCartney foi para Julian um tio quase pai depois de Lennon se apaixonar por Yoko e deixar Cynthia; mais tarde, o próprio Lennon admitiu que nunca soube brincar com o filho e que delegava muitas vezes essa função para Paul.

The Guardian conta que Jules passou a Jude pelo motivo mais musical possível: “Soava melhor”, contou McCartney anos depois. A verdade é que a base empírica da música se alterou quando o britânico percebeu que estava também a escrever sobre a sua própria vida, tal como se percebe quando a letra muda o azimute de discurso encorajador paternal para discurso encorajador romântico (Hey Jude, don’t be afraid, you were made to go out and get her, “Hey Jude, não tenhas medo, tu foste feito para ir lá e ficar com ela”, em português). Na altura, em 1968, McCartney tinha acabado de ser deixado pela noiva, Jane Asher, que o apanhou a traí-la com outra mulher. Ao mesmo tempo, o rapaz de Liverpool namorava secretamente com Maggie McGivern e tinha acabado de conhecer Linda Eastman, com quem esteve casado durante quase 30 anos. Mas talvez seja a ambiguidade da letra, o facto de se aplicar a tantas outras histórias de amor dos anos 60 e de agora, que tornou Hey Jude o hino de tantas outras vidas que não a de McCartney.

A chegar à Grécia, em 1967: Julian Lennon, então com quatro anos, de mão dada com McCartney e não com o pai
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E foi por isso que quando Paul McCartney, já regressado a Londres, mostrou pela primeira vez a nova música aos outros três membros dos Beatles, Lennon gritou: “Sou eu!”. Mas Paul, ainda longe de perceber a real abrangência da canção, ripostou: “Não, sou eu!”. Nas semanas que se seguiram, o músico lutou pela visão que tinha para Hey Jude como nunca tinha feito com qualquer outra composição sua. Bateu o pé pela duração da gravação, que chegou aos sete minutos, mesmo depois de George Martin lhe ter dito que nenhuma rádio passaria uma música com tanto tempo; recusou um riff de guitarra que George Harrison tinha composto para responder aos na, na, na; e conseguiu convencer os produtores a contratar uma orquestra para a segunda parte da canção.

A primeira parte foi gravada em Abbey Road. A segunda teve de ser tocada noutro estúdio, o Trident, este já com espaço para os 36 músicos clássicos que se juntaram aos Beatles naquele dia. De repente, Hey Jude já não era uma música composta por um homem solitário a caminho de casa da ex-mulher do melhor amigo; mas sim uma composição com pés e cabeça tocada por 40 músicos.

Até ao final dos anos 60, foi gravada por Elvis Presley, Smokey Robinson, Diana Ross e Ella Fitzgerald. Tornou-se um hino também no futebol, cantado pelos adeptos do Manchester City quando o clube ganhou a Premier League pela primeira vez, em 2012, e utilizado pela claque do Arsenal para evocar Olivier Giroud, o francês que entretanto se mudou para Chelsea. Mas acima de tudo, Hey Jude é o elo que permanece entre Paul McCartney e John Lennon. “É a melhor música do Paul”, disse John em 1972, já depois do fim dos Beatles.

(via Observador)

Música eletrônica e cinema: conheça o Cine Hits em Goiânia

No mês de julho, a produtora JUNTA, comandada pelo pesquisador musical Salomão Augusto e pelo produtor musical e publicitário Davis Santillo (foto), levam uma programação inédita a Goiânia: uma série de exibições de filmes focada na cultura da música eletrônica. O projeto foi batizado com o nome de CINE HITS, e consiste em uma brincadeira com um tradicional cinema de rua da cidade, chamado Cine Ritz, só que agora voltado única e exclusivamente para a música. Documentários, apresentações icônicas e filmes relacionados a música eletrônica foram selecionados para essa estreia do projeto.

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A programação se estenderá pelos domingos de julho (8,15,22 e 29) e acontecerá na escola para DJs e produtores da capital, Music Lab. As sessões serão realizadas a partir das 16h e serão gratuitas.

junta1__salomo_e_david_500Salomão Augusto e Davis Santillo – produtora JUNTA

Conteúdo

Com relação ao conteúdo que será exibido, a dupla pretende trazer uma nova maneira de enxergar a música eletrônica além da pista e do entretenimento. Para eles, o audiovisual é de extrema importância para que o gênero musical possa perpetuar e ficar registrado, e esse é o principal motivo pelo qual o projeto foi criado. A sequência envolve artistas da música eletrônica, tanto na produção quanto a frente do conteúdo, ou na trilha sonoroa original.

Entre os filmes que serão exibidos, longas como “Don’t Think” (Chemical Brothers), “Electroma” (Daft Punk), “ISAM” (Amon Tobin), “10 Anos de Música Eletrônica no Brasil” (Documentário,2002) e vários outros títulos selecionados pela curadoria da dupla.

(via House Mag)

Ouvir música no trabalho não é distração, é motivação, diz a ciência

Por Igor Murta 

Um guia científico para que não te sintas mal por ouvires música no trabalho.

Os apaixonados por música como eu encontram sempre desculpas para ouvir música no trabalho. Hoje em dia não é difícil depararmo-nos com trabalhadores cujo segundo maior acessório para o desempenho de suas funções (além do computador), sejam os headphones. E se por acaso estás a ler esse artigo no trabalho, é muito provável que os estejas a usar.

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A música está na discoteca, nas jantaradas, nos dates românticos, mas também pode estar muito presente no ambiente de trabalho. Mas até que ponto é realmente útil? A ideia desse artigo não é alterar ou sugerir a melhor maneira de trabalhar mas revelar pontos científicos que comprovem esse benefício. Há muita gente por aí a consumir imenso tempo para comprovar que a música é mesmo benéfica, enquanto há poucos que insistem em repetir aquilo que as nossas professoras diziam na escola: Silêncio!!!

EFEITOS DA MÚSICA NO CORPO, POR ESPECIALISTAS

O primeiro estudo oficial de referência data de 1972, por J.Fox e E.Embrey pela ScienceDirect. A principal conclusão a tirar foi: o benefício depende do trabalho desempenhado. Músicas cheias de explosões, por exemplo, ajudam na produtividade àqueles que cumprem tarefas repetitivas que, embora possam perder o foco, não exigem muita capacidade cognitiva. Já em actividades contrárias, músicas agitadas ou com letras atrapalham. Em contra partida, em 1989 um artigo de A. Furnham, observou com ironia que “as tarefas de gestão mais complexas são provavelmente melhor realizadas em silêncio”.

Se achas que música clássica é chata e não estimula o cérebro, tens de deixar essa visão de lado. O estudo mais famoso sobre o impacto da música no cérebro humano aconteceu nos anos 90, quando a psicóloga da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, F. Rauscher descobriu que é possível melhorar o raciocínio com sonatas de Mozart e, desde então, foi bastante discutido. Confirmou-se que o estilo clássico altera sensivelmente as actividades cerebrais e aumenta o que os especialistas chamam de neurotransmissão sináptica. Em palavras do dia-a-dia, quando um neurónio bate um papo com outro.

Um outro estudo realizado pela Canadian Research descobriu que os indivíduos apresentaram melhores resultados nos testes de QI quando estavam a ouvir músicas ritmadas. A música barroca, por exemplo, é uma escolha popular para quem precisa de se concentrar. Num pequeno estudo realizado pela American Roentgen Ray Society, confirmou-se que os radiologistas no hospital de Baltimore, Estados Unidos, relataram melhorias no seu trabalho e humor quando ouviam música barroca.

Numa apresentação na TED de 2009: “The 4 ways sound affects us”,  J. Treasure (fundador da The Sound Agency), explica como os efeitos da música e qualquer outro tipo de ruído são capazes de influenciar o nosso corpo e vida.

O EFEITO PSICOLÓGICO

O som pode fazer com que a gente se sinta alegre ou triste, e isso é resultado de anos e mais anos de evolução da espécie humana. Para os nossos antepassados o assobio das andorinhas nas manhãs, representava um som de segurança porque significava a sua sobrevivência a uma noite na natureza. Hoje a música é muito mais massificada e cada indivíduo tem a sua própria playlist para sonorizar cada um dos seus efeitos psicológicos (do melhor ao pior).

O EFEITO COGNITIVO

O som pode ter um impacto directo na forma como as informações são processadas, pois ainda não somos super heróis a fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Isso significa que trabalhar em um open space pode arruinar a nossa produtividade, uma vez que qualquer risada ou conversa paralela são capazes de distrair o nosso foco.

O EFEITO COMPORTAMENTAL

O som é tão poderoso que nos faz mover. Voltemos ao efeito fisiológico e usemos o som da sirene como exemplo: quando é muito “histeriónica”, tendemos a proteger os ouvidos, fazer caretas e até abaixar-nos. Se por outro, alguém grita alto perto de nós, a reacção esperada, além do susto, é um salto à retaguarda quase instantâneo.

ALGORITMO MUSICAL PARA O TRABALHO

Vistos todos os efeitos da música no corpo agora é preciso encontrares o teu próprio algoritmo musical para o trabalho.  Não é só para acostumar o ouvido do “burburinho” que os especialistas indicam a música para concentração. O segredo está em encontrar o estilo de música que tem melhor efeito na concentração pessoal.

A reacção a cada estímulo altera-se consoante a pessoa (cada macaco no seu galho) e é a própria pessoa que consegue facilmente identificá-la. À medida que a música flui, muitos centros cerebrais diferentes podem ser activados, dependendo se a música é familiar ou nova, feliz ou triste, num tom acima ou abaixo, ou – talvez o mais importante para fins de trabalho – com letra ou não. O truque é escolher a música com cuidado e combinar as músicas escolhidas com a tarefa a desempenhar.

BIBLIOTECA DE MÚSICA A SEREM INCLUÍDAS

Como as preferências musicais variam muito de pessoa para pessoa, pesquisadores descobriram que uma das melhores maneiras de escolher a música certa para se concentrar é optar por canções com 50 a 80 BPM. A psicóloga do The British CBT & Counselling Service E. Gray descobriu que esse tempo musical ajuda o nosso cérebro a alcançar o estado alfa. Quando a cabeça fica calma, alerta e concentrada, tudo ao mesmo tempo.

Tente ouvir músicas que não tenham letras — muito menos refrões pastilha elástica. O teu cérebro pode derreter ao tentar decifrar as palavras da música que ouves ao mesmo tempo que tentas escrever um e-mail. Se ainda assim não fores capaz de ouvir música sem letras, tente escolher algo em um idioma que não entendas — como o idioma “hopelandic“, inventado e utilizado pela banda islandesa Sigur Rós.

O cérebro é uma máquina de predição, fazendo uma série infinita de suposições sobre o que acontecerá depois. Quando se trata de música no trabalho, o ideal é não gastar recursos cognitivos a prever o que estás prestes a ouvir.  Ouvir musicas constantes, relativamente imutáveis, que não possuam muitos picos e vales emocionais, ou mudanças de humor, mostraram melhorias nas habilidades cognitivas simples e incentivam  o cérebro a manter um nível de subconsciente baixo, ao contrário da música pop, que possui elementos de distração. Por isso tenta ouvir músicas previsíveis e mais estáveis se não podes precisar de um Xanax ao final do dia.

Alguns estudos sugerem que a música “major-key” (uma música que pareça mais feliz do que triste) faz com que o tempo pareça passar mais devagar. Se isso é bom ou não depende do teu tipo de trabalho e do que precisas fazer antes de ir para casa.

Existe uma única categoria de música no trabalho que tem um conjunto de regras totalmente diferente: o tipo de música para expressar alguma reação emocional. Tenta tocar um hino de rock ou uma banda sonora do teu filme de ação preferido para iniciar com humor o teu dia de trabalho ou ouvir uma música favorita como uma recompensa por um trabalho bem feito.Isso traz muitos dos benefícios cognitivos da música, sem qualquer desvantagem de distração.

A MÚSICA NO TRABALHO

Razões há muitas para ouvir boa música em qualquer lugar mas é preciso atenção em algumas ocasiões.  A hora menos indicada acontece sempre que tenhas que fazer algo de novo, de aprender algo verbalmente ou pela leitura. A aprendizagem requer análise por parte do cérebro para assimilar instruções e a música pode atrapalhar esse processo, sobretudo quando tem voz e letras que sobrecarregam o cérebro. Da mesma forma, quando ouves música nova, essa tarefa constitui uma novidade, o que pode ser prejudicial ao trabalho, uma vez que a música se torna mais interessante e uma prioridade sobre a tarefa a realizar, roubando a concentração do trabalho.

Poucas empresas têm algum tipo de regulamentação da música durante o horário de trabalho. Mesmo assim, é uma boa ideia consultar o chefe antes de abusar nos uso de phones. Podem achar que não estás envolvido no trabalho ou que estás preso no teu próprio mundo.

Quando o teu algoritmo estiver compilado, podes recompensar o teu tico e teco com alguma aleatoriedade musical. Para isso podes aproveitar serviços de música em streaming como Spotify, Apple Music ou Amazon Music que possuem algoritmos para prever automaticamente músicas que possas gostar. Aqui vai uma playlist, de pouco mais de 10 horas, pensada para isso.

(via Shifter)

“Teardrop” de Massive Attack faz 20 anos e não podia ser feita hoje

Por Rita Pinto

E a culpa é da era do imediatismo em que vivemos.

É daquelas músicas que conheces de certeza, mesmo que o nome não te diga nada no imediato, o soar do primeiro acorde vai reavivar-te a memória. E a isso deve-se o facto de “Teardrop” surgir até aos dias de hoje em filmes e séries (lembras-te de House?), normalmente naqueles finais conclusivos ou em momentos de suspense que condizem com o seu tom sombrio. Foi-nos perseguindo, com o seu tom cardíaco, como um som que nos parece fresco até à centésima audição, daquelas que não nos importamos que seja tantas vezes imposta na banda sonora dos nossos dias porque sempre soou algo futurista, algo que, 20 anos depois, continuaria a fazer sentido analisar. Mas porquê?

Massiveattack

A música foi inteiramente construída em torno do ritmo do batimento cardíaco do bombo – um sample de uma peça de Jazz de Les McCann de 1973 chamada “Sometimes I Cry” – que serve de órgão vital do tema.

Os Massive Attack gravaram a primeira demo instrumental em Abril de 1997. Depois, começaram a tentar encontrar a voz que mais se adequasse à melodia etérea. A escolha acabou por ser entre Madonna e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins. Temendo que a opção por Madonna tornasse a música demasiado pop, Robert Del Naja, Grantley Marshall e Andrew Vowles acabaram com a companhia cristalina de Fraser.

Considerada por muitos “a voz de Deus”, Fraser assume que estava carregada de melancolia quando gravou a canção. O seu palavrear quase esotérico ao ponto da incompreensão é uma espécie de homenagem triste a Jeff Buckley, um dos seus melhores amigos que morreu em Maio de 97. Numa entrevista ao The Guardian, Elizabeth confirmou que “Teardrop” é um pouco sobre o músico, um tributo criado à medida de uma luva para o trabalho de Buckley, cuja própria música pode definir-se de forma semelhante no que toca à sua expressão mais dolorosa.

Quando os Massive Attack lançaram “Teardrop” como single do seu álbum de 1998,Mezzanine, a música depressa subiu às alturas vertiginosas do top 10 do Reino Unido. O seu sucesso foi confirmado ainda pelas dezenas de covers que se lhe seguiram. Newton Faulkner, José González, Elbow, Simple Minds ou Gary Barlow ao comando de vários músicos britânicos incluindo Ed Sheeran e o rapper Tinchy Stryder, foram alguns dos nomes que se aventuraram nas águas atribuladas de “Teardrop”.

Mas é aqui que reside uma das principais características da canção, algo tão paradigmático dos dias de hoje, que faz com que seja praticamente impossível para um músico produzir um som idêntico actualmente. “Teardrop” tem uma introdução de 1 minuto. Passam-se exactamente 62 segundos até que a primeira palavra seja cantada, e nem sequer estamos perante uma daquelas intros banais, feitas para captar a nossa atenção ao primeiro acorde. Durante um minuto, “Teardrop” leva-nos num crescendo lento, através do qual, camada sob camada, chegamos a um tema rico em textura e absolutamente imersivo.

Considerados os pioneiros de trip-hop, os Massive Attack conseguiram uma proeza filha do contexto em que foi alcançada, e isso vê-se com os covers que outros artistas fizeram do seu mais afamado single. É que nenhuma das versões acima faladas repete esta introdução que se constrói ao longo de 60 segundos, de forma tão controlada e sombria.

ewton Faulkner, habilidoso guitarrista, elimina por completo a introdução e recria algo parecido através da maneira idiossincrática com que bate na sua guitarra entre notas. A de José González, compositor sueco-argentino, é toda reinterpretada com a ajuda da guitarra e, a voz que o caracteriza traz uma vulnerabilidade à música que não se sente na força da “Teardrop” original.

Até a versão dos ingleses Elbow, das mais fiéis que encontrámos, salta para a letra antes dos 20 segundos.

É engraçado ver como bandas dos mais variados estilos interpretam e adaptam um tema já de si tão peculiar, percebendo-se que terá sido precisamente esse o gatilho para o cover. Veja-se a versão dos Simple Minds, que amplifica a falta de compreensão da música numa composição meio assustadora.

No ano passado, um estudante de doutoramento da Ohio State University publicou um estudo no qual concluiu que as introduções das músicas são, em média, 78% mais curtas hoje em dia do que eram há 30 anos. Na era do streaming instantâneo, tornámo-nos impacientes com a música que ouvimos, saltamos de faixa em faixa sem muitas vezes pararmos para relaxar num tema. A nossa procura por imediatismo significa que, agora, produtores e editoras exigem que os artistas cheguem ao refrão — o momento que mais vende da música – o mais rápido possível.

Quando os Massive Attack lançaram “Teardrop” em 1998, Mezzanine, esse clima de eficiência musical ainda não se tinha instalado, e a verdade é que nenhum cover recriou a atmosfera assombrosa do clássico da banda, ou conseguiu cozinhar os ingredientes distintivos que fazem com que o tema seja relevante ainda hoje – e apesar de muitos terem tentado, poucos músicos mainstrean teriam hoje a liberdade para lançar uma faixa tão demorada, na medida certa.

(Via Shifter)

Qual a relação entre a duração de um CD e a 9ª Sinfonia de Beethoven

Por Luiza Bandeira

Sony afirma que capacidade de 74 minutos foi definida para que sinfonia pudesse ser ouvida, uma espécie de lenda urbana, segundo alguns especialistas

Beethoven

Entre 1979 e 1980, as gravadoras Sony e Philips negociavam juntas um padrão para uma tecnologia que revolucionaria a indústria fonográfica (e a de armazenamento de dados), em formato digital: o CD. Enquanto a Philips defendia um formato com capacidade para uma hora de música, a Sony argumentava por um disco com 74 minutos de duração. O motivo? Segundo a empresa, a 9ª Sinfonia de Beethoven, cuja gravação mais longa localizada à época tinha essa duração.

De acordo com a Sony, foi o então vice-presidente da empresa, Norio Ohga, que insistiu para que o CD tivesse capacidade para tocar os 74 minutos da versão lenta da 9ª Sinfonia, em uma performance conduzida pelo maestro alemão Wilhelm Furtwängler. A peça não cabia em um só LP de 33 1/3 rpm, formato popular até então – para reproduzi-la, usavam-se os dois lados de um disco e mais um lado de outro (no segundo lado do segundo disco, costumava-se gravar uma das sinfonias mais curtas de Beethoven).

Uma reportagem da revista Wired afirma que quatro pessoas que participaram da negociação sobre a padronização do tamanho do CD tinham alguma relação com a sinfonia de Beethoven. Não se sabe exatamente quem insistiu para que a música coubesse num único CD. O registro lembrava Ohga de seus estudos no conservatório de Berlim, era a música preferida de sua mulher e da mulher do então presidente da Sony, Akio Morita, e ainda havia sido executada pelo Filarmônica de Berlim sob regência do maestro Herbert von Karajan, que havia gravado pela Polygram, subsidiária da Philips, e que também participava da reunião.

Lenda urbana

No livro “Perfecting Sound Forever: An Aural History of Recorded Music”, Greg Milner escreve que a história pode ser uma espécie de lenda urbana. O ex-engenheiro da Philips Kees A. Schouhamer Immink vai além, afirmando que “a prática diária é menos romântica que a caneta de um guru das relações públicas”. Segundo ele, a insistência da Sony em fazer um CD de 74 minutos ocorreu por motivos comerciais. À época, a Polygram, subsidiária da Philips, já havia construído uma fábrica que podia produzir CDs com diâmetro de 115 mm (capacidade de 60 minutos). Se a Sony aceitasse esse tamanho, sairia atrasada na competição pelo mercado. Por isso, lutou por um padrão diferente, e acabou vencendo. O primeiro álbum de música produzido já no formato inovador foi “The Visitors”, do quarteto sueco Abba.

Uma curiosidade que Immink acrescenta é que, na prática, devido a questões técnicas, o tempo máximo de música que um CD podia executar era de 72 minutos. Por isso, a 9ª Sinfonia de Beethoven executada sob regência de Furtwängler só pôde ser ouvida em um único CD em 1988, quando a tecnologia evoluiu e o tempo de duração do CD aumentou.

(Nexo Jornal)