Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

Por Flavio Sampaio

Quem disse que maconha e ginástica não combinam? Em Portland, a cidade mais hipster do planeta, um grupo de mulheres se reúne em torno da erva (em tragos e drinques) para fazer aeróbica, ioga e, claro, dar muitas risadas

mg_1752-b

O domingo amanheceu com a cara de Portland: nublado e friozinho. Ao andar pelas ruas, é fácil perceber que o lugar mais cool do planeta não segue nenhuma tendência de moda. Nas calçadas se veem apenas chinelos com meia, calça de moletom, gorro, malha de lã puída com broche e capas e mais capas de chuva. Sempre. Meca dos hipsters, Portland é para eles o que foi São Francisco para os hippies nos anos 1970. A principal cidade de Oregon, na Costa Leste americana, sedia empresas de ponta, como a Nike, ao mesmo tempo que tem um número recorde de brechós por metro quadrado. É cercada por uma natureza exuberante, tem as melhores cervejas artesanais da América e o uso da maconha recreativa e medicinal é legalizado.

mg_1769-b

No dia em que Marie Claire visitou o segundo andar de um predinho do bairro Albina, zona norte da cidade, o clima cinzento que predomina no inverno nem dava as caras. No lugar de roupas monocromáticas e largas, leggings e bodies multicoloridos. Polainas, faixinhas na testa e acessórios brilhantes deram o tom do outfit dos praticantes de um esporte particular e com a cara da cidade: a ginástica da maconha. Nele, as pessoas fazem abdominais, alongamentos, agachamentos, movimentos típicos de academias.

mg_2052-b

Criada no fim de 2016, logo após Donald Trump vencer as eleições presidenciais americanas, pela produtora gráfica Amarett Jans, 33, a aula recebeu o nome de Mary Jane Fonda. “Estava deprimida com o resultado e juntei as duas coisas de que mais gosto na vida para mudar o astral”, diz. A escolha do nome não poderia ser mais oportuna: entre os tantos apelidos da erva, Mary Jane (Maria Joana, em português) é um deles. Jane Fonda é a atriz que, além de ter sido indicada para sete Oscars (levou dois), revolucionou a América (e o mundo) com os vídeos em VHS ensinando como manter a forma em frente à TV. Lançadas em 1982, as fitas venderam 17 milhões de cópias.

A Mary Jane Fonda (MJF) funciona assim: Amarett define local, dia e hora, convida os alunos pelo perfil no Instagram e se une a alguma loja ou produtor de maconha. Contrata um DJ e duas professoras, uma para exercícios aeróbicos e outra com uma pegada mais tranquila, em geral com sequências de ioga. Cobra US$ 30 de cada participante. Maconha inclusa, claro. Vale dizer que em 29 estados americanos e na capital, Washington, o consumo da droga é legal para fins médicos ou recreativos – sempre para maiores de 21 anos. Atualmente, um em cada cinco americanos tem acesso legal à maconha.

Havia 30 participantes no dia em que acompanhamos a prática – lotação máxima. Destes, 27 eram mulheres. Entre os homens, dois eram gays. O terceiro foi com a namorada. O ambiente descontraído acaba deixando todo mundo mais à vontade. Principalmente depois que o THC, sigla para tetraidrocanabinol, e o CBD, para canabidiol, começam a fazer efeito. O primeiro é a substância que altera o estado da mente. O segundo tem efeito relaxante, não chapa ninguém.

Antes do espírito de Jane Fonda baixar no local, o salão mais parece um encontro de amigas em noite de sexta. Uma bartender prepara drinques (sem álcool) misturando suco de frutas, gelo, hortelã, blueberry e 5 ml de infusão de maconha. No Brasil, alguém chamaria de caipironha. O efeito acontece entre 15 e 30 minutos após a ingestão. Há quem prefira “vaporizar”, o método mais usado. Basta tragar uma espécie de cigarro eletrônico com o extrato da erva. “O vaporizador permite que saiba exatamente a quantidade que estou ingerindo”, diz a professora de ioga Jocelyn Bada, 40. “Prefiro mais CBD com um pouquinho de THC. O primeiro dá uma sensação corporal gostosa, enquanto o segundo dá foco. Se passo do ponto, fico descoordenada mas acabo me divertindo também”, diz. Hoje, Jocelyn tem uma marca de roupas que produz peças de cashmere. O carro-chefe são as indefectíveis polainas, um clássico dos anos 80. “Lembro da minha mãe à frente da TV fazendo os exercícios da Jane Fonda, as roupas, as músicas, a cultura fitness.” Terminada a primeira rodada de drinques e vaporizadores, é chegada a hora de malhar.

Os movimentos (nem sempre) cadenciados são (quase sempre) acompanhados por sorrisos. Nem mesmo três sequências de 20 abdominais, seguidas por dez flexões, tiram a alegria. Ao final da primeira etapa, dava para sentir o calor humano – coisa rara na América. Mulheres que nunca haviam se visto conversavam como velhas amigas. “Mary Jane Fonda é mais que um esporte, é uma comunidade, uma forma de reunir pessoas com o mesmo ideal. Foi concebida com o espírito da colaboração e não da competição”, explica Amarett. “Todo mundo sabe que maconha é agregadora.”

Numa sociedade em que as redes sociais estão mais populares que as relações humanas, eventos como o MJF ajudam a “quebrar o gelo”. Quem afirma isso é Sue Carlton, 25, estudante de saúde da mulher e ativista pró-cannabis. Para ela, o estigma negativo da maconha começou a ser coisa do passado. “Mas a luta continua”, avisa. Usuária desde os 13 anos, Sue viu amigos, familiares e até seu irmão serem presos por causa do uso da erva. Aos 19, começou a ter cólicas, insônia, perda de apetite e nenhum interesse sexual. Diagnóstico: síndrome do ovário policístico. O médico receitou maconha para o tratamento. Ela, que ainda não conseguiu a cura, consome a planta para aliviar as dores. “Foi o que me pôs de volta nos trilhos”, afirma. “A legalização é fundamental, pois beneficia o usuário e todo o sistema. Reduz o consumo de remédios e opioides; economiza o dinheiro que era drenado no Judiciário e nas penitenciárias para ser investido em educação e prevenção”, discursa a estudante, que pretende se lançar vereadora em Portland.

Enquanto conversamos, ela passa o vaporizador para a amiga Ashley Dellinger, com quem já foi a quatro encontros do MJF. Ainda no intervalo da aula, dá tempo para fazer uma massagem com creme tópico à base de maconha. “Tem propriedades relaxantes cientificamente comprovadas”, explica a massagista Regan Goodrich. Uma nova trilha sonora toma a sala. A DJ escolheu um som tranquilo para finalizar o relaxamento. Aos poucos, as roupas coloridas dão lugar a blusas cinzas, botas e capas de chuva. Em comum, a endorfina circulando pelo corpo, o sorriso fácil e muita fome – se uma aula de aeróbica já dá larica, imagine com maconha junto?

(via Marie Claire)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>