Johnny Depp

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Embebedava-se, fuma demais e até já foi ao Calçada da Fama só para fazer xixi em cima da estrela com o seu nome. Agora só bebe cerveja sem álcool

Por vezes, já noite dentro, em filmagem nos locais mais diversos do mundo, depois de pousar a guitarra ou fechar um dos quatro ou cinco livros que lê em simultâneo ou de desligar o televisor após ter assistido a “algum lixo televisivo”, Johnny Depp começa a interrogar-se. Adora o que faz mais… não haverá mais nada em que prefira meter-se? Não seria bom ir para um sítio qualquer pensar e escrever – ou apenas “vomitar” ideias?johnny_depp_tonto_train

No escritório em Los Angeles, acabadinho de chegar da festa do 14.º aniversário da filha na noite anterior, Depp põe-se a pensar. “Já estou com 50 anos em cima destes ossos”, diz, dando uma longa passa num dos seus gordos cigarros castanhos, habilmente enrolados por ele próprio. “Não posso dizer que queira fazer isto mais 10 anos.”
A ideia de se reformar passa-lhe pela cabeça todos os dias. “Queria aproveitar mais a vida. Sem ter de estar sempre a fugir pela cozinha dos restaurantes ou pelas caves dos hotéis. Não quero viver como fugitivo.” Por outro lado, o envelhecimento abre a porta a novos papéis – veja-se o caso do falecido companheiro de copos Marlon Brando. “No fundo, não sei se sou capaz de abrandar”, diz. E apaga o cigarro num cinzeiro colocado sobre a mesa, com uma roleta de cassino embutida.

Johnny Depp é um tipo com quem é bom estar. Os seus heróis (Brando, Keith Richards ou Bob Dylan) tendem a tornar-se seus amigos. “O Johnny é tão interessante como o Dylan ou o Brando… ou eu próprio”, diz Richards, que passou horas a dar entrevistas a Depp para o documentário que o ator está a fazer sobre o guitarrista dos Rolling Stones.

Depp veste-se como vagabundo. Hoje usa um chapéu gasto com uma pena, um velho casaco castanho e uma camisa azul. As calças de ganga são largas, com pingos de tinta e vários rasgões com fita-cola. Tem barbicha e tatuagens no corpo. “Já estou a ficar sem espaço para mais”, diz. Usa óculos. Desde nascença que é “cego que nem uma toupeira do olho esquerdo”. O problema é impossível de tratar. “Vejo tudo desfocado.” O olho direito é míope (e também já não vê muito bem ao perto). Sempre que está a atuar (a não ser que tenha a sorte de a personagem usar óculos), só consegue ver o que estiver a centímetros da cara.

A explicação para a fita-cola nos jeans é simples: “Estava para ir a uma festa na escola do meu filho e quando vesti as calças percebi que os rasgões eram tão grandes que se via o meu rabo. E eu não uso roupa interior.”

1990: Em ‘Eduardo Mãos de Tesoura’Imagem-MILTMP19354281-(1)

Como? Johnny Depp não usa roupa interior? “Essa tende a ser a minha abordagem”, diz, corando um pouco. “Fui logo à procura de fita-cola para tapar os buracos. Eu sei, é patético. Ainda por cima, continuo a usá-las.”

No escritório da sua produtora, Depp vai bebendo uma cerveja sem álcool. Há um ano que não toca em bebidas alcoólicas, mas recusa usar a expressão “deixar de beber”. Nunca se considerou um alcoólico. “É uma espécie de remédio, automedicação, para acalmar o circo à minha volta. As festas e coisas do gênero sempre foram experiências desagradáveis para mim. Precisava de beber quando estava nesse tipo de situações.”

Também deixou de fumar, mas voltou ao vício recentemente embora fume menos do que antes. Durante as três horas e meia que estivemos com ele, fumou seis cigarros. E tem o hábito de cortar as imagens chocantes dos maços de tabaco.

A maior alteração recente na sua vida é uma questão delicada: o divórcio de Vanessa Paradis, sua companheira durante 14 anos e mãe dos seus dois filhos. “As relações são muito difíceis. Isso não põe termo ao fato de continuarmos a gostar de uma pessoa e de ela ser a mãe dos nossos filhos. Portanto, mais vale tentarmos dar o melhor face à situação.”

2003: Em ‘Piratas dos Caríbes’Imagem-MILTMP19354280-(1)

Os tablóides deram relevo ao fato de Depp ter andado na companhia do amigo Marilyn Manson no rescaldo da separação. “O Johnny e eu nunca fomos amigos de copos”, diz Manson. “Apesar de ter sido ele a meter-me no absinto… Hei-de culpá-lo sempre por isso… Estávamos ambos com problemas e passar tempo com ele deixava-me mais feliz. E parecia que eu também o deixava mais feliz.” O cantor diz que ninguém ficou mais perturbado do que a sua namorada. “Ela dizia coisas do tipo: ‘Pois, andas a passar tempo com o Johnny Depp e ele está solteiro.’” Isso era a pior coisa que alguma rapariga podia ouvir.”

Depp, que namora agora com a atriz de 27 anos Amber Heard [até Janeiro namorada da modelo francesa Marie de Villepin], também tem passado tempo com um amigo que só há pouco tempo conheceu pessoalmente: Damien Echols, que esteve preso 18 anos acusado de assassínio e foi ilibado por provas entretanto obtidas. Há anos que Depp financia a defesa do seu caso. Os dois já fizeram juntos seis tatuagens idênticas.

2005: Em ‘Charlie e a Fábrica de Chocolate’Imagem-MILTMP19354279-(1)

Na sua versão mais jovem, Depp ficou conhecido pelos acessos de deboche, destruindo quartos de hotel após cada separação (Kate Moss, Winona Ryder), mas ele insiste que, desta vez, não foi o caso. Depp tinha 15 anos quando os pais se divorciaram e não suportou isso muito bem.

A sede da sua produtora, a Infinitum Nihil, é moderna, com uma enorme cozinha à entrada. A sala de reuniões está cheia com cartazes de O Mascarilha, o seu novo filme [estreia em Portugal a 8 de Agosto] e obras pintadas pelo próprio Depp, incluindo retratos de Bob Dylan e Marlon Brando.

Estamos virados para uma porta dupla no seu gabinete que dá para uma espécie de museu da sua carreira: há uma máquina de flippers de Os Piratas das Caraíbas e uma réplica em tamanho real do esqueleto do Homem-Elefante. Entre estas duas peças está um manequim sem cabeça envergando o traje original, de couro negro e metal, que usou em 1990 em Eduardo, Mãos de Tesoura. Este foi o filme que estabeleceu o padrão da sua carreira daí em diante. “Ao cobrir-me de maquiagem, dos pés à cabeça, torna-se mais fácil olhar para as outras pessoas”, diz o ator, que há anos que não vê qualquer dos seus filmes.

Nas veias ainda lhe corre sangue dos índios americanos. Quando o realizador Gore Verbinski revelou aos executivos o interesse de Depp no seu projeto (O Mascarilha), eles ficaram delirantes. “Toda a gente pensou: ‘Johnny Depp no papel do Mascarilha? Fantástico! Faça-se o filme.’ Depois, as suas expressões azedaram quando lhes disse que ele queria ser o índio: ‘O quê? Ele quer interpretar o Tonto?!’”

O ator até usa um antigo símbolo da tribo comanche no colar de corda ao pescoço. No ano passado, foi adotado como filho da ativista comanche LaDonna Harris num ritual. Deram-lhe o nome de Shape Shifter [Aquele que Muda de Forma]. “Pareceu-me muito adequado”, comenta Harris.

Desde os 20 anos que Depp mantém um diário. É a forma como resolve os puzzles da vida; as suas tentativas com a psicoterapia nunca correram bem. “Nos diários, tento ser o mais honesto possível. Mas há uma parte de ti que, estranhamente, nem a ti próprio confessas, porque, no fundo, sabes que alguém vai ler a merda dos diários quando estiveres feito em cinzas”, afirma.

2010: Em ‘Alice no País das Maravilhas’Imagem-MILTMP19350225-(1)

Cresceu numa família de classe remediada que tinha o estranho hábito de mudar de casa quase todos os meses – primeiro no estado do Kentucky, depois na Florida. O sentimento de viver como um fugitivo vem daí. O pai era engenheiro civil e a mãe empregada de mesa. “Contavam sempre os tostões no fim do mês. Por alturas do Natal, já tínhamos falido três ou quatro vezes”, conta. “Ela cresceu numa barraca nos montes Apalaches e diz que fez o melhor que sabia para nos educar. Aos meus filhos, digo-lhes que os amo 75 vezes por dia.”

Mudar de casa ainda o afeta. “Quando chega a altura de fazer as malas, mesmo que seja para ir de férias, fico num frangalho. Há malas que nunca cheguei a desfazer. Tenho malas e malas algures, em arrecadações alugadas. Sei que ainda tenho, num sítio qualquer, uma mala que trouxe do Eduardo, Mãos de Tesoura e nunca abri a do Quem não Chora não… Ama. Estas pequenas cápsulas do tempo estão para ali, num sítio qualquer, só porque não fui capaz de lidar com elas.”

Com a namorada, a atriz Amber Heard, de 27 anos, e os filhosJohnny Depp Sighting In Tokyo

Diz também que não acredita em Deus. “Acho que estamos cá e que é basicamente só isso. Depois é só pó e larvas.” Durante uns tempos, pensou que seria fixe se o seu corpo fosse atirado para um precipício quando chegasse o fim. “Sempre entretinha as pessoas. Ou podiam guardar a pele onde tenho tatuagens. Recortá-las, arranjar molduras com formol, onde fossem preservadas, e mantê-las assim esticadas – isto não parece nada macabro, pois não? Não.”

Marilyn Manson conta a história de uma noite de bebedeira, em Hollywood, em que os dois foram vagueando até à estrela de Depp, no Passeio da Fama – mesmo entre Wesley Snipes e Sonny e Cher. “Queríamos mijar em cima da estrela dele”, diz Manson. “Pensámos nisso mas não posso confirmar ou negar que o tenhamos feito.”

E depois há aquela voz que Depp houve na cabeça a toda a hora: “F***-se, F***-se. Não precisas desta merda. F***-se.” Ri-se à gargalhada a contar isto, como se Brando estivesse a gritar-lhe aos ouvidos. “O Marlon chegou a um ponto da vida em que simplesmente disse: ‘Não quero saber disto’”, afirma Depp, sorrindo, como se fosse um fugitivo que consegue, finalmente, ver ao longe o fim da estrada. “E isto deve ser como atingir uma espécie de nirvana. Só pode ser. É a liberdade.”

Por Brian Hiatt/Exclusivo ‘Rolling Stone’

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