Mikhail Baryshnikov: em busca da liberdade para dançar

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Ator, coreógrafo mas, sobretudo, um gigante do ballet. É isso mesmo que Mika (o seu petit nom) é: um gigante. Se o leitor visse Mikhail Baryshnikov a dançar, a primeira coisa que saltaria à vista é a energia, a vibração, a excitação que debitava nos movimentos. A segunda nota é a rebeldia e a ousadia da sua dança. Estas emoções que Mika nos transmite são confirmadas nas entrevistas do bailarino quando confessa que nunca duvidou dos seus impulsos e, claro, pela coragem que revelou ao desertar da URSS, em 1974, em busca de uma melhor oportunidade para se expressar criativa e livremente.01_Mikhail_Baryshnikov_at_YoungArts_2010__de_Knight_Foundation_01

Nasceu em Riga, na agora independente Letónia, que era na altura parte da União Soviética. Baryshnikov começou os seus estudos de ballet em 1960 e, sete anos mais tarde, integrou o Ballet Kirov, estreando-se no Teatro Mariinsky com o papel do camponês de Giselle, em 1967. O talento de Baryshnikov, em particular a força da sua presença e a sua pureza técnica, foi reconhecido por vários coreógrafos soviéticos (Oleg Vinogradov, Konstantin Sergeyev, Igor Tchernichov e Leonid Jakobson) e o crítico britânico Clive Barnes caracterizava-o como “o mais perfeito bailarino que alguma vez vi”.02_Baryshnikov_revista_pajaro_de_fuego_n_18_agosto_1979_02

Naquela altura viviam-se os gélidos tempos da Guerra Fria. A indústria da propaganda de cada uma das duas grandes potências exaltava as respectivas maravilhas, enquanto estas se debatiam na cena internacional. Como não podia deixar de ser, a cultura era uma das bandeiras da estratégia de guerra. Mikhail era o bastião do ballet soviético, amado e adorado pela sua pátria. Infelizmente, os sentimentos não eram mútuos e, farto da atmosfera sufocante do comunismo soviético, deixou-se seduzir pelas maravilhas, promessas e liberdades do “american way of life”.

Criatividade e liberdade são dois valores que andam, geralmente, de braços dados. Num certo sentido, a criatividade é um ato radical de liberdade. O medo, a subjugação ao domínio de outros (ou do todo, do colectivo, como dita o comunismo) restringe de uma forma violenta as barreiras à mente criativa, à demonstração do eu artístico que há nos indivíduos. A ousadia da criatividade é isso mesmo: transcender os valores e comportamentos do grupo. Não quer dizer que a criação não tenha como objeto esses valores mas tem um plus: a visão do “eu artístico”. E isso é transcender o coletivo e individualizar.

Assim, em 1974, após uma performance do Ballet Bolshoi em Toronto, o bailarino desertou, numa espécie de peregrinação, da União Soviética em busca de liberdade pessoal e criativa, de uma oportunidade melhor para se expressar criativamente, confiante de que a sua técnica transcendia barreiras culturais. Tinha razão.

Alguns anos mais tarde, Mikhail explicou-se à New Statesman: “sou um individualista e, lá, isso é um crime”. Nos EUA, entrou para o American Ballet Theatre (ABT) onde apareceu em variadas produções. O público compareceu em massa para ver “a sua técnica clássica impecável, aparentemente sem esforço e as manobras no ar extraordinárias que executava com tanto entusiasmo e precisão”, escreveu Laura Shapiro, na Newsweek. Três anos mais tarde, Mika foi nomeado para um Óscar pela sua performance em “The Turning Point” (1977), um filme em que contracena com Anne Bancroft e Shirley MacLaine. Mais prémios viriam: em 1979 e 1980 – já Mikhail tinha deixado o ABT e estava, desde 1978, no New York City Ballet – dois Emmy’s por performances na televisão. Sempre em busca de novos desafios à sua expressividade, aparece, em 1985, ao lado de Gregory Hines em “White Nights” e, em 1989, na produção da “Metamorfose” kafkiana.

Em 1990, Mika cria o projeto avant-garde White Oak, com Mark Morris, abraçando assim a dança contemporânea. “É menos educada, mais democrática, mais transparente e, na minha perspetiva, mais próxima do coração das pessoas”, confessou à New Statesman. Em 2003 e 2004, fez uma aparição memorável na série “Sexo e a Cidade,” onde vestiu a pele de um artista russo amante de Sarah Jessica Parker. Apesar de um problema no joelho, Mika continuou a dançar nos seus 50 e 60 anos mas, recentemente, guardou os seus sapatos de bailarino e voltou aos palcos em “Paris” (é mesmo o nome da peça), em 2011 e 2012, peça baseada numa história do escritor russo Ivan Bunin.

Por Graça C. Moniz04_Baryshnikov_and_Minnelli_1981_TV_Scout_Previews_04 05_Mikhail_Baryshnikov_at_YoungArts_2010__de_Knight_Foundation_05

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