Qual a relação entre a duração de um CD e a 9ª Sinfonia de Beethoven

Por Luiza Bandeira

Sony afirma que capacidade de 74 minutos foi definida para que sinfonia pudesse ser ouvida, uma espécie de lenda urbana, segundo alguns especialistas

Beethoven

Entre 1979 e 1980, as gravadoras Sony e Philips negociavam juntas um padrão para uma tecnologia que revolucionaria a indústria fonográfica (e a de armazenamento de dados), em formato digital: o CD. Enquanto a Philips defendia um formato com capacidade para uma hora de música, a Sony argumentava por um disco com 74 minutos de duração. O motivo? Segundo a empresa, a 9ª Sinfonia de Beethoven, cuja gravação mais longa localizada à época tinha essa duração.

De acordo com a Sony, foi o então vice-presidente da empresa, Norio Ohga, que insistiu para que o CD tivesse capacidade para tocar os 74 minutos da versão lenta da 9ª Sinfonia, em uma performance conduzida pelo maestro alemão Wilhelm Furtwängler. A peça não cabia em um só LP de 33 1/3 rpm, formato popular até então – para reproduzi-la, usavam-se os dois lados de um disco e mais um lado de outro (no segundo lado do segundo disco, costumava-se gravar uma das sinfonias mais curtas de Beethoven).

Uma reportagem da revista Wired afirma que quatro pessoas que participaram da negociação sobre a padronização do tamanho do CD tinham alguma relação com a sinfonia de Beethoven. Não se sabe exatamente quem insistiu para que a música coubesse num único CD. O registro lembrava Ohga de seus estudos no conservatório de Berlim, era a música preferida de sua mulher e da mulher do então presidente da Sony, Akio Morita, e ainda havia sido executada pelo Filarmônica de Berlim sob regência do maestro Herbert von Karajan, que havia gravado pela Polygram, subsidiária da Philips, e que também participava da reunião.

Lenda urbana

No livro “Perfecting Sound Forever: An Aural History of Recorded Music”, Greg Milner escreve que a história pode ser uma espécie de lenda urbana. O ex-engenheiro da Philips Kees A. Schouhamer Immink vai além, afirmando que “a prática diária é menos romântica que a caneta de um guru das relações públicas”. Segundo ele, a insistência da Sony em fazer um CD de 74 minutos ocorreu por motivos comerciais. À época, a Polygram, subsidiária da Philips, já havia construído uma fábrica que podia produzir CDs com diâmetro de 115 mm (capacidade de 60 minutos). Se a Sony aceitasse esse tamanho, sairia atrasada na competição pelo mercado. Por isso, lutou por um padrão diferente, e acabou vencendo. O primeiro álbum de música produzido já no formato inovador foi “The Visitors”, do quarteto sueco Abba.

Uma curiosidade que Immink acrescenta é que, na prática, devido a questões técnicas, o tempo máximo de música que um CD podia executar era de 72 minutos. Por isso, a 9ª Sinfonia de Beethoven executada sob regência de Furtwängler só pôde ser ouvida em um único CD em 1988, quando a tecnologia evoluiu e o tempo de duração do CD aumentou.

(Nexo Jornal)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>